quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Revolta do Egito é laica e não afetará cristãos, diz especialista

Manifestantes permanecem na Praça Tahir, no Cairo: centro dos protestos



Afirmação foi feita ontem pelo especialista em demografia Youssef Courbage

Em uma entrevista à agência de notícias Efe em Madri, Courbage, que é diretor de pesquisas do Instituto Nacional de Estudos Demográficos de Paris, ressaltou que a revolta contra o regime do presidente Hosni Mubarak não vai prejudicar a situação dos cristãos no país. "Não vai afetar porque os cristãos do Egito, sobretudo os coptas, têm uma longa tradição de coabitação com o mundo muçulmano", ressaltou.

Segundo ele, os protestos no Egito "são manifestações da população, muito laicas, muito seculares e as reivindicações são, sobretudo políticas, o fenômeno da religião não está presente". Para este especialista em demografia dos países árabes, a Irmandade Mulçumana não conseguirá chegar ao poder. "No máximo, poderão se alinhar com outros partidos políticos e ter alguma pasta em um gabinete de coalizão", ressaltou.

Courbage mostrou-se convencido de que no Egito "a mudança é iminente" e que os grupos que representam a modernidade serão "os que tomarão o poder em um governo de coalizão com diversos partidos". "O problema é que o Egito está atualmente fragmentado em diversos partidos, mas eles encontrarão um meio de se organizar para governar", disse. Ele acrescentou que "a evolução do mundo árabe" revela que ele se "encaminha rumo a mais laicismo, mais secularização e que, como consequência, não haverá maiores repercussões sobre a população cristã".

EM REELEIÇÃO

O vice-presidente egípcio, Omar Suleiman, disse hoje que nem o ditador Hosni Mubarak nem seu filho, Gamal - que era visto como possível sucessor do pai - se candidatarão nas eleições presidenciais marcadas para setembro, informou a TV estatal. No pronunciamento, ele também prometeu punir todos os responsáveis pelos episódios de violência que assolam o país, e pediu a soltura dos jovens detidos nos protestos antigoverno que não estejam envolvidos nos incidentes violentos.

Mais cedo, o premiê do Egito, Ahmed Shafiq, reiterou seu pedido de desculpas pelos confrontos dos últimos dois dias na praça Tahrir, no centro do Cairo, entre manifestantes pró e antigoverno e disse não saber quem está por trás da violência. Em entrevista coletiva a jornalistas, Shafiq afirmou ainda que está disposto a negociar com quer for para encerrar a crise.

A entrevista ocorre horas depois de manifestantes pró e antigoverno voltarem a se enfrentar na manhã desta quinta-feira, em uma rua próxima à praça Tahrir, no Centro do Cairo, onde horas antes os governistas abriram fogo contra opositores do regime de Hosni Mubarak, no poder há 30 anos.

O tiroteio deixou ao menos cinco mortos, segundo informações das agências de notícias. O ministro de Saúde egípcio, Ahmed Samih, diz que cinco morreram nos confrontos de quarta --a maioria por pedradas ou ataques com pedaços de metal e paus. Outros 836, segundo Samih, foram levados ao hospital e 86 continuam internados. O saldo de mortos chega assim a dez nos últimos dois dias.

O Exército interveio para conter os manifestantes pró-governo e a agência de notícias Efe afirma que os militares chegaram a disparar para o alto para dispersar manifestantes. "A prioridade é descobrir o que aconteceu ontem [nesta quarta-feira]", disse Shafiq, que prometeu uma investigação "completa e profunda" sobre os confrontos. "Para saber se foi planejado, acidental, liderado por uma pessoa, um grupo... Lidaremos de acordo com a lei e logo com quem for responsável pelo que aconteceu ontem e que causou este caos".

Em uma espécie de mea culpa, Shafiq repetiu inúmeras vezes que o papel do Estado é proteger os egípcios e reiterou que a violência não se repetirá. "O que ocorreu foi uma catástrofe e não se repetirá nunca". Ele disse acreditar que grupos aproveitaram a falta de segurança no local - onde o Exército apenas acompanhou os protestos, sem interagir-- para incitar a violência e disse não descartar uma conspiração.

"Fiquei muito surpreso de ver dromedários nos protestos. Temos dromedários nos arredores do Cairo. Os donos dos dromedários são da indústria de turismo, eles sofrem muito com os protestos", disse Shafiq, sobre uma das cenas mais surpreendentes dos confrontos, quando homens em cavalos e dromedários invadiram Tahrir chicoteando os manifestantes da oposição.

Os manifestantes da oposição acusam o governo de enviar policiais a paisana entre seus apoiadores, inclusive os que invadiram o local nos cavalos e dromedários. Eles afirmam ter detido ao menos 120 pessoas carregando identidades da polícia ou do partido governista quando atacavam manifestantes.


Postado em 03 de fevereiro de 2011

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